Assunção Cristas em entrevista ao jornal Económico “A pesca também precisa de gente nova”


Confiante de que o sector primário irá impulsionar o PIB nacional, Assunção Cristas reconhece dificuldades mas mostra-se optimista com os jovens, declarou em entrevista ao jornal Económico.

Na semana em que se comemorou o Dia Mundial do Mar, Assunção Cristas anunciou que Portugal vai ter um novo navio de investigação oceanográfica, estratégico para “desenvolver o conhecimento que temos no fundo do mar”. Mais uma pedra neste universo da economia primária onde os recursos naturais do país marcam a agenda da já apelidada “super Ministra”. Para o Económico, e a propósito de um tema “real”, a Ministra da Agricultura, Mar, Ambiente e Ordenamento do Território disponibilizou uns minutos e deu-nos uma entrevista telefónica na viagem que efectuou entre a Golegã (onde decorria a Feira Nacional do Cavalo) e Lisboa. A entrevista, que começou às 16h16, ficou pautada por muito ritmo, pelo reconhecimento que “muito há a fazer” e pelo anúncio de que esta semana vai ser feita a primeira reunião de uma plataforma, criada juntamente com o Ministério da Economia, para resolver o problema da distribuição do sector primário. Uma plataforma que junta organizações da produção, da indústria e da comercialização.

A quantos quilómetros à hora seguia a viatura da Senhora Ministra? Não sabemos. O que podemos afirmar é que a entrevista decorreu a mais de cem. Um bom limite, que não ultrapassou a lei, área de formação da Ministra, e que serviu para assegurar que Assunção Cristas tem um abecedário composto. De nome próprio começado por A, juntam-se ao seu currículo mais dois A´s: atitude e assessoria. Condimentos necessários para alicerçar um triplo A, sigla “fabulosa” do mercado financeiro que parece existir na economia real.

Apercebe-se que os jovens se estão a virar para os sectores tradicionais da economia, como a agricultura?
Temos vindo a aperceber-nos que a agricultura vai gerando um grande interesse e, no terreno, apercebemo-nos que há sempre mais gente e também gente mais nova e mais qualificada. Creio que é muito positivo, porque nós precisamos, de facto, de trazer gente nova e qualificada para a agricultura porque isso ajuda a dar o salto que o sector precisa de dar. A agricultura é um sector com um grande potencial de crescimento, que no passado recente provou um grande dinamismo. Basta dizer que nos últimos dez anos, as exportações na área da agricultura aumentaram 10%, enquanto que na média geral, aumentaram 5,4%. Isto dá a nota da vivacidade do sector; e também dá nota de como hoje se faz agricultura de uma maneira diferente, sofisticada e que pode atrair pessoas com outras qualificações.

Temos uma população envelhecida na agricultura?
Repare que nós temos das populações mais envelhecidas da Europa na agricultura. A média de idades dos agricultores é de 63 anos. Nós, abaixo dos 75 anos, apenas temos dois por cento de agricultores. Eu não tenho dúvidas que o sector agrícola, da agro indústria e também da parte florestal, estão a dar, e vão dar, um grande contributo para que o país se possa alicerçar de uma forma muito mais sólida em áreas económicas, que vemos sempre com papel relevante nos países mais desenvolvidos e que em Portugal precisam de ser reabilitadas e de terem caminho grande para andar.

E relativamente à pesca?
A pesca também precisa de gente nova, precisa de formação e precisa que se pesque melhor. Hoje em dia também já temos formas mais modernas de pescar, mas precisamos de fazer um grande caminho. Penso que não devemos olhar só para a pesca. Devemos olhar para a aquicultura e para o mar como uma fonte de riqueza maior e muito além dos recursos piscatórios. O mar tem recursos vivos e não vivos muito relevantes. O grande desafio de Portugal, no que respeita ao mar, é ter esta visão integrada que nos leva a olhar para aquilo que são as riquezas sub-aquáticas e do subsolo marinho. A dimensão da investigação e do desenvolvimento do conhecimento é uma matéria importantíssima.

Passando às inquietudes dos jovens com quem falámos: na pesca, dizem que Portugal não tem frota e que é impossível ser competitivo…
A questão da frota pesqueira tem essencialmente a ver com as alterações do direito do mar em 1994 e com a entrada em vigor da legislação internacional nova, que fez com que Portugal deixasse de pescar em sítios onde pescava antigamente. E as suas frotas longínquas foram, de facto, muito abatidas. Relativamente à pesca artesanal e à costeira teve menos impacto do que se podia imaginar. Até porque é verdade que houve abate de embarcações, mas normalmente a esse abate seguiu-se uma renovação, não na mesma medida mas em moldes que permitem pescar melhor e com mais quantidades. Portanto, perdemos em número de embarcações mas renovamos alguma frota. Quando olhamos para os números vemos que houve um decréscimo, quando comparamos os anos 80 com a actualidade, mas tem sobretudo a ver, não com esta pesca costeira e artesanal, mas com a longínqua, onde passou a haver regras específicas no que diz respeito à protecção das zonas económicas exclusivas de cada Estado.Temos ainda que evoluir na área da pesca, sobretudo fazendo pesca de forma mais moderna, mais precisa e sem tantos desperdícios. Mas a nossa pesca é uma pesca por vezes incompreendida por outros países, porque é uma pesca típica do sul da Europa, é uma pesca multipesca. Para além da questão da pesca, o desafio do país é o desafio da aquicultura. Nós temos capacidade de fazer aquicultura e esse é um ponto, em que salvaguardadas as questões ambientais, é preciso começarmos a apostar.

É possível aumentarmos a nossa quota de pesca na UE?
Essa é uma matéria que está sempre em cima da mesa. Os nossos ‘stocks’ estão ligados com o próprio ‘stock’ das diferentes espécies.Agora, não tenhamos a ilusão. Porque há muita da nossa pesca, e da pesca que é consumida em Portugal, que não está sujeita a nenhuma quota. A questão das quotas é naturalmente relevante mas diz apenas respeito a uma parte das questões, não diz respeito a todo o universo da pesca em Portugal.

Outra inquietude: os agricultores queixam-se que não têm informação. Essa ajuda poderá vir do Ministério?
Claro, claro. Essa é uma das matérias em que vamos trabalhar intensamente. Está no horizonte das nossas preocupações ter um Ministério muito capaz de dar informação sistemática quer para os nossos agricultores, quer para eventuais interessados em investir na agricultura. Outro ponto importante, que tem a ver com a questão da comercialização, é de facto uma atenção grande que estamos a dar às relações entre a produção, a indústria e a distribuição. Porque muitas vezes é aqui que as coisas falham e que há muitas queixas dos jovens agricultores que têm dificuldades em colocar os seus produtos. Esta semana vamos fazer a primeira reunião da plataforma criada para este efeito, que junta com o Ministério da Economia, organizações da produção, da indústria e da comercialização para encontrarmos melhores práticas a serem seguidas ou mesmo procurar aprovar legislação, no sentido de promover relações mais estáveis e justas em toda a cadeia de valor.

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